quarta-feira, 18 de julho de 2007

Fantasma de Grinalda

Algumas pessoas fazem yoga, outras jogam vídeo-game. Já tem seres que adoram falar ao telefone quando estão precisando refletir sobre qualquer assunto. Diferente desses e de outros, eu corro de moto e isso me faz ter idéias, sejam elas boas ou ruins.
A madrugada estava gelada como nunca. Parecia que aquele telefonema distante e aquela voz macia e rouca havia me causado mais problemas do que eu imaginava quando bati deselegante e furiosamente o telefone.

1ª marcha:
“Eu deveria ter sido mais calmo. Porque me irritei tão fácilmente? Rodrigo, você consegue ser um perfeito idiota nessas horas”. O vento estava frio e eu não conseguia enxergar direito por conta da neblina, como sempre acontece. “Acha que isso foi inteligente? Acha que ela gostou de ver esse seu lado?”. Em algum ponto desse monólogo algo aconteceu que não era previsto. Alguém cometeu um erro que gerou outros e muito provavelmente esse alguém fui eu. “Está na hora de fazer esse maldito motor render!”.

2ª Marcha:
Dentes cerrados de ódio das minhas reações mecânicas e automáticas. Os pneus em quase cinco mil giros queimavam no asfalto a cada curva que eu fazia sem reduzir um único Km/h. “Maldito seja esse fantasma de grinalda! Maldita seja a idéia de que eu não posso fazer nada para evitar que um evento cataclísmico como esse aconteça!”. A estrada ficou reta. É hora de fazer a ruiva cantar os pneus no asfalto frio!

3ª Marcha:
São duzentas e cinqüenta cilindradas de força que parecem nada quando comparadas à negatividade que exala dos meus poros. Eu parecia alguém que não se importaria nem um pouco em deixar de existir após aquele momento. “Como pode me falar em segredos agora que eu revelei todos os mais graves e asquerosos eventos, medos e traumas da minha vida? Como ela pode achar que eu não suportaria a verdade?”. O vento ficou mais gelado e a velocidade mais alta: “Como eu adoraria um acidente em alta velocidade agora! Aposto que doeria menos!”.

4ª Marcha:
“Algum idiota disse uma vez que a sorte brinda os que dela fogem”. Essa frase faz realmente sentido. Com o tempo a aceleração constante faz com que pensemos mais rápido. Faz com que sejamos mais rápidos nas reações. Eu penso em fantasmas que deixo para trás. Eu penso nos problemas que me circundam. Mas não paro de pensar no erro que cometemos: “Algemas para nossas almas....Não deveríamos ter começado com isso. Eu deveria ter ficado calado dentro do banco. A culpa é toda nossa!”.

5ª marcha:
Sou movido à velocidade. O mais importante durante o processo é que eu estou te exorcizando da minha vida enquanto as rotações do motor chegam ao ponto máximo: “Um choque com um caminhão me estraçalharia por completo! Mas eu seria muito feliz por aquele último segundo de respiração sem pensar no vestido de noiva que vai se arrastar pela igreja cheia de pessoas aplaudindo tal espetáculo bizarro”. Meus olhos não conseguem mais permanecer abertos enquanto eu estou olhando para as cores distorcidas pela minha passagem: “Finalmente eu consegui!”.

Redução brusca!

O motor grita meu nome e mais alguns xingamentos com a descida das marchas. Eu não posso acelerar nem mais um segundo. Minhas mãos travaram quando eu pensei no que me disse quando foi embora. Eu cumprirei minha parte no acordo e vou respeitar sua vontade. Agora se me permite, eu vou descer dessa moto, pois acabo de escapar de um acidente: “Minha vida ainda é muito cara para se perder assim! E eu aposto que você vai concordar com isso!”. Você tinha toda a razão quando disse que eu não sou mais o mesmo: “Obrigado pelas lições!”


Adeus, minha amiga! Que o que tivemos seja eterno pela fração de segundo que se passou!

quarta-feira, 4 de julho de 2007

E eis que 'ele' uma noite desperta

Nunca fiz o que estou prestes a realizar...
Nunca me pus a compor um texto movido por um sentimento tão asqueroso
Já é quase meia noite e eu, mais uma vez estou na frente desse maldito teclado. Nunca as teclas me pareceram tão pequenas e insignificantes. Nunca olhei para a tela dessa forma odiosa e com tanto ira narcisista.
Sinto que estou descontando esse sentimento em algo que não devo. Sinto que meus alvos deveriam ser outros e que eu poderia simplesmente assassinar algumas pessoas para que meu planeta volte ao normal. Mas acho que eu estaria cometendo um erro de proporções letais. Eu estaria ressuscitando meu falecido monstro. Eu seria o meu passado novamente!
Lembro que há alguns anos, momentos de tremendo ódio como este me faziam tomar uma garrafa de qualquer coisa que atiçasse minha visão e alinhasse meu cérebro a um ponto onde o sangue era a única referencia.
Só que dessa vez, algo está diferente. Eu simplesmente parei aqui, praguejei algumas vezes e não pedi perdão por isso. Sentei na frente dessa máquina e comecei a expor essa deprimente mostra de falta de controle emocional. Meu aparente desconforto se resume em saber que prejudiquei uma pessoa além de mim. Isso realmente faz uma diferença e tanto nessa fase da minha vida e eu não quero mais ter a culpa de estragar o sorriso de nenhum ser humano na face da terra. Não seria justo...
Embora eu esteja simplesmente possesso, eu sei exatamente o que eu tenho que fazer para que as coisas se ajeitem. Sei a quem eu tenho que pedir desculpas sinceras e quem deve ser punido com o meu desprezo e a minha arrogância até agora adormecidas.
Sobre minhas atitudes e sobre eu estar sendo duro com as pessoas, eu tenho algo a dizer a meus críticos: “Não é com minha ira aparente que deveria causar susto e surpresa, mas justamente a falta dela no meu semblante, pois um sorriso ás vezes pode conter mais veneno do que mil palavras imersas em ira e revolta!”
Se eu realmente não conseguir conter essa raiva que me assola nesse momento, eu com certeza não dormirei muito bem e vou ficar com dores no meu corpo durante dias. Minha boca amarga de forma assustadora, sintetizando o que meu cérebro interpreta como sendo ainda um resquício dos ferimentos mortais contra meu peito na noite anterior.
Vamos ver se eu consigo fazer o dia se tornar melhor do que a minha noite.